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Dia das mães

  • Writer: Valentina Barboza
    Valentina Barboza
  • May 27
  • 2 min read

Nos últimos dias, em meio ao aumento dos casos de feminicídio noticiados no Brasil, uma cena específica me atravessou profundamente.


No final de semana do Dia das Mães, enquanto uma mulher tentava escapar de uma tentativa de feminicídio, uma agente de trânsito que prestava socorro pegou seu bebê, que chorava no berço, e o amamentou.


Achei impossível não me deter nesse gesto.


Há algo profundamente humano quando, em meio à violência, alguém consegue interromper — ainda que por um instante — a lógica da destruição para produzir cuidado.


Enquanto o corpo de uma mulher aparecia reduzido ao lugar de objeto do gozo destrutivo do outro sobre seu corpo, surgia, na contramão da violência, um ato que reinscrevia humanidade e laço: uma mulher sustentando o filho de outra para que ambas pudessem sobreviver.


A agente de trânsito que amamenta aquele bebê não responde apenas a uma necessidade biológica. Seu gesto introduz um cuidado que barra, ainda que momentaneamente, a lógica mortífera presente naquela cena.


Diante do traumático, aquele encontro testemunha que ainda pode existir alguém capaz de acolher a vulnerabilidade sem transformá-la em posse, domínio ou destruição.


Talvez exista algo da maternidade também aí.


Não apenas no vínculo biológico, mas na capacidade de oferecer amparo diante do desamparo, de sustentar a vida em meio ao horror e de afirmar a existência justamente onde a violência tenta impor a morte.


O Dia das Mães costuma produzir imagens idealizadas da maternidade. Mas, na clínica, mães aparecem de muitas formas: as que desejaram filhos e as que não desejaram; as que amaram a experiência materna e as que sofreram nela; as suficientemente boas e as profundamente ambivalentes.


A maternidade nunca é simples.


E talvez seja justamente por isso que ela apareça tanto nas análises: porque todos nós, de algum modo, fomos sustentados — bem ou mal — pelos cuidados, faltas, desejos e limites daqueles que vieram antes de nós.


Cuidar das mulheres também é cuidar das possibilidades de existência de uma sociedade inteira.


Isso implica garantir condições para que possam viver sem violência, circular com segurança, desejar livremente, escolher ter filhos ou não tê-los, e existir para além dos lugares historicamente impostos a elas.


Implica também responsabilizar aqueles que compartilham a tarefa do cuidado, da presença e da sustentação da vida.


Talvez o que mais tenha me atravessado naquela cena tenha sido justamente isso: em meio ao traumático, ainda pode existir um gesto capaz de interromper a repetição da violência e fazer surgir, ainda que brevemente, uma possibilidade de laço.

 
 
 

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