Nem tudo o que somos cabe em uma definição
- Valentina Barboza
- Jun 30
- 2 min read
Quem você deixa de ser quando tenta caber em uma definição?
Vivemos cercados de definições.
"Ela é a inteligente."
"Ele é o bagunceiro da família."
"Você é muito tímido."
"Ela é a responsável."
"Ele é ansioso."
Desde muito cedo, aprendemos a nos apresentar — e a sermos apresentados — por meio de definições.
Elas organizam o mundo, facilitam a comunicação e, muitas vezes, são indispensáveis. Nomeamos fenômenos, construímos categorias e criamos conceitos para compreender a realidade e nos relacionarmos com ela.
Mas existe algo da experiência humana que resiste a ser completamente explicado.
"Tímido", "extrovertido", "inteligente", "bagunceiro", "mãe", "pai", "professor", "psicólogo"... Todas essas palavras ajudam a organizar aspectos da experiência humana.
Da mesma forma, reconhecer-se como mulher, homem, pessoa negra, indígena, pessoa LGBTQIA+, pessoa com deficiência, ou em tantas outras formas de pertencimento, pode significar encontrar uma história compartilhada, uma comunidade, um lugar de reconhecimento e de luta por direitos.
Essas categorias podem ser fundamentais. Elas organizam experiências, fortalecem vínculos e, muitas vezes, tornam possível nomear vivências que antes pareciam solitárias.
Há experiências que só se tornam compartilháveis quando encontramos palavras para nomeá-las. Em certos momentos, isso pode produzir reconhecimento, pertencimento e até alívio.
Ainda assim, nenhuma definição consegue esgotar a singularidade de uma vida. Ela pode nomear aspectos importantes de quem somos, mas não consegue abarcar a complexidade de uma história, de um desejo e de uma forma singular de existir.
O desafio talvez não esteja em abandonar as categorias, mas em reconhecer seus limites.
Em sustentar a possibilidade de que sempre exista algo que escape a um diagnóstico, a uma identidade, a um papel social ou a qualquer definição pronta.
É justamente nesse ponto que a psicanálise encontra seu lugar.
Não para substituir uma definição por outra, nem para dizer quem alguém "realmente é", mas para abrir espaço para aquilo que cada sujeito tem de singular — o que nenhuma categoria é capaz de antecipar por completo.
Porque, no fim, a pergunta nunca é apenas:
"O que você é?"
Mas também:
"Quem é você para além das palavras que tentam nomeá-lo?"
Talvez essas perguntas possam servir como ponto de partida:
Quem você deixa de ser quando tenta caber em uma definição?
O que pode aparecer quando deixamos, por um instante, a necessidade de classificar?
O que deixamos de ouvir quando classificamos alguém antes de escutar sua história?
Será que toda a experiência humana cabe nas categorias que criamos para descrevê-la?
E se a singularidade de uma experiência começar justamente onde as categorias deixam de alcançar?
É justamente aí que a psicanálise encontre seu lugar: não oferecendo respostas definitivas sobre quem somos, mas sustentando a possibilidade de que sempre exista algo em nós que resista a qualquer definição.
artista: @avgust.point

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